Se antes era prática comum
prometer cestas básicas, emprego ou tratamento médico em troca de votos para
conquistar um mandato, com o aumento da escolaridade do eleitor brasileiro
essas propostas começam a perder espaço para um voto de mais qualidade. Para
especialistas, há um novo eleitor em construção e a melhora no nível
educacional pode se transformar em mais consciência política no médio prazo.
Apesar de a maior parte dos
eleitores ainda ter baixa escolaridade, houve aumento no número de pessoas com
superior completo e incompleto e ensino médio completo e incompleto. Dados do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que dos 142,8 milhões de eleitores
aptos a votar no pleito de outubro, 5,6% (8 milhões) terminaram a graduação -
2,8 milhões de pessoas a mais que nas eleições de 2010.
O número de pessoas com superior
incompleto também subiu em relação a 2010 – aumentou em 1,5 milhão, passando de
2,7% para 3,6%. O número de cidadãos com ensino médio completo aumentou em 5,9
milhões de pessoas, de 13,1% para 16,6%. Já o número de eleitores com ensino
médio incompleto teve um incremento de 1,8 milhão, de 18,9% para 19,2%.
Em contrapartida, o número de
analfabetos e dos que apenas leem e escrevem (analfabetos funcionais) diminuiu.
São cerca de 700 mil analfabetos a menos que na eleição de 2010, passando de
5,8% dos eleitores para 5,1%. No caso dos analfabetos funcionais, são 2,5
milhões a menos no pleito de 2014, de 14,5% do eleitorado para 12%.
Para o cientista político
Leonardo Barreto, especialista em comportamento eleitoral, o índice de
desenvolvimento educacional do eleitor é reflexo da evolução dos indicadores de
educação da população brasileira. “As pessoas melhoraram a capacidade de buscar
e processar informações porque é isso que, basicamente, o nível de educação
mais elevada proporciona.”
O Censo Demográfico 2010 do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que o nível de
escolarização, de um modo geral, tem melhorado no país. No grupo acima de 25
anos, idade considerada suficiente para conclusão da graduação, o número de
pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto caiu de 64% em 2000
para 49,3% em 2010. Com ensino médio completo passou de 12,7% para 14,7% e a
proporção de pessoas com ensino superior completo passou de 6,8% para 10,8%.
Para Barreto, ainda não é
possível dizer que o país já tem um eleitor mais crítico e consciente. “É um
eleitor híbrido, que combina a necessidade de propostas novas para ele, de
políticas públicas mais universais, com práticas antigas. Era uma pessoa que
até ontem estava dentro de um contingente populacional que era muito suscetível
a trocas e a propostas clientelistas. É uma pessoa que está migrando de um
lugar para outro, mas que ainda está no meio do caminho porque essa é uma
mudança de uma geração.”
De acordo com o especialista, com
o aumento da escolarização e da renda, fazer campanha em uma região pobre não
significará encontrar um eleitor desprovido de capacidade crítica e de
informação. “Na periferia, você vai encontrar pessoas cujos filhos estão
fazendo ou fizeram faculdade. Uma geração abastece a outra. O filho que fez
faculdade é o orgulho da família, vai influenciar quem não fez. Tem um efeito
de dispersão desse conhecimento. Isso torna o processo político mais complexo.
Abre uma janela de oportunidades para uma nova geração de políticos. Quem
interpretar e conduzir bem esse processo vai sair na frente”, disse.
O professor do Instituto de
Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Roberto Kramer também
avalia que o eleitorado brasileiro está em fase de transição. Para ele, os
dados do TSE comprovam o gradual avanço nas condições de vida e de educação da
população. “Um eleitor mais instruído costuma ser mais exigente. Esse eleitor
tende a transcender o nível mais básico de expectativas e necessidades, como o
alimento e o teto, e passa a querer políticas públicas mais amplas, de
educação, saúde e mobilidade urbana de qualidade.”
Na opinião do especialista, os
políticos vão se deparar com uma parcela cada vez maior da população que vai
cobrar seus direitos. “Esse novo eleitor certamente vai lançar um desafio para
os políticos, que é repaginar suas propostas, suas maneiras de abordagem, pois
está mais crítico ao confrontar as promessas que são feitas com a possibilidade
de concretização.”
Para a coordenadora-geral da
organização não governamental (ONG) Ação Educativa, Vera Masagão, à medida que
o país mude o perfil educacional da população, a tendência é que o perfil do
eleitorado também seja alterado no sentido de um voto mais consciente.
“Pessoas com mais escolaridade se
sentem mais empoderadas, sentem menos o político como alguém de quem precisam
para ter um favor. Tendem a romper essa visão do clientelismo, daquele
pobrezinho que precisa ir lá pedir favor para o político. Aumentam a
consciência cidadã de que eu estou exercendo meu direito votando e que o meu
dever também não acaba na hora do voto. Tenho que continuar cobrando e é dever
desse gestor público cumprir as promessas que fez. Esse caráter da cidadania é
reforçado”, disse.
Segundo Vera, ao lado da educação
formal, é preciso ampliar a educação cidadã. “Essa é uma educação que se dá
principalmente no engajamento político. Então são pessoas participando de
partidos, de ONGs, engajadas, acompanhando causas de interesse público e
políticas públicas. É dessa forma que a gente vai, de fato, mudar a política,
com mais gente participando e exercendo o controle social.”
Agência Brasil

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