segunda-feira, 11 de novembro de 2013

11 de novembro de 1904: Eclode a Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina. Jornal do Brasil: Sábado, 12 de novembro de 1904
Nunca se viu nada igual nas ruas do Rio. A população, que como arma contava apenas com paus e pedras, enfrentou com coragem a força policial, esta sim, armada de espingardas e revólveres. Tudo começou com o anúncio da vacinação obrigatória contra a varíola, imposta por Oswaldo Cruz, com o aval do prefeito Pereira Passos e a aprovação do Congresso.

Um ano antes, Cruz inventara um exército de mata-mosquitos. Dessa vez, criara uma tropa armada com seringas. As ordens são as mesmas: invadir as residências e aplicar a injeção a qualquer preço, sem perguntar se o morador concorda ou não em ser picado pelas agulhas. Até mesmo o senador Ruy Barbosa se manifestou contra tamanha invasão de privacidade. “Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”, protestou em seu discurso no Senado. Por sua vez, Cruz alegou que a vacinação é comum na Europa, onde já provou ser eficaz. Mas há quem discorde do sanitarista, como o senador Lauro Sodré, que afirmou que, além de provocar a própria varíola, a vacina causa inúmeros outros males. Apoiando o senador, estão outros positivistas como ele, monarquistas, florianistas e operários, que já haviam mostrado seu poder de mobilização na greve geral do ano anterior.

Enquanto as autoridades discutem, a população, desgostosa com o governo desde que ficou desabrigada com o bota-abaixo, parte para a ação. Sem outras armas além dos escombros recolhidos nas ruas, ela enfrenta os policiais como pode. Bondes, postes de iluminação e até colchões e móveis tirados de dentro das casas servem para montar barricadas. Só na Senhor dos Passos, 17 bondes foram tombados para impedir a ação das forças de segurança. A cena se repetiu por toda a cidade. Do Encantado ao Jardim Botânico, não ficou um único poste de iluminação de pé. A Saúde foi apelidada de Porto Arthur, nome do local, onde, na Ásia, guerriavam japoneses e russos.

No dia 14, aproveitando-se da batalha nas ruas, 300 cadetes da escola militar tomaram o prédio da Praia Vermelha e, liderados pelos generais florianistas Silva Travassos e Olímpio Silveira, marcharam rumo ao Palácio do Catete, onde enfrentaram e venceram os 2 mil homens da guarda palaciana. Os feridos entre os cadetes, no entanto, eram muitos, e o grupo foi obrigado a retornar para a escola, onde foram subjugados no dia seguinte. Foram cinco dias de conflitos sangrentos. 

No fim, a força das armas, apoiada pela decretação do estado de sítio, falou mais alto. A vacinação foi feita e, pelo que mostraram as estatísticas, a varíola realmente desapareceu na capital da República. Apenas 39 casos foram registrados em todo o ano de 1904, contra os mais de 600 de 1903. Porém, o preço da conquista sanitária foi alto: 30 mortos, 110 feridos, 945 presos, 454 homens enfiados em sujos porões de navios e mandados para o Acre, e 7 estrangeiros extraditados.


Fonte: Jornal do Século - publicação especial do Jornal do Brasil

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