No ano passado, o Brasil produziu
uma montanha de lixo. Foram quase 63 milhões de toneladas de resíduos sólidos.
Para debater e aprofundar uma das temáticas mais importantes da vida nas
grandes metrópoles, o JC inicia série de reportagens que segue até o dia 17.
Segunda (11), as poucas, porém importantes, experiências de coleta seletiva no
Recife.
É mais do que absurdo e indignação.
É desperdício e inoperância. A foto do menino de Saramandaia, quase engolido
pela sujeira do canal, carrega um pouco de todos nós (ver galeria de imagens no
final da matéria). É o nosso lixo de cada dia que está ali, espiando os pecados
de uma cidade que não aprendeu a tratar seus restos com consciência e
cidadania. A confissão de culpa flagrada em cada detalhe. Perpetuada nas
milhares de garrafas PET, sacos plásticos, latinhas de refrigerante, na trivial
embalagem de margarina. Quase tudo reaproveitável. Não deveria, nem precisava
estar lá. De onde veio esse mar de entulhos que, dragado pela maré baixa do
Canal do Arruda, sufoca e corrói a infância dos meninos de Saramandaia? Como
ele foi parar ali na foto que correu o mundo?
Basta ver. É lixo vindo das nossas
cozinhas, da rotina diária de todas as casas. Lixo doméstico. Produzido por uma
metrópole que ainda não incorporou, sequer descobriu, a coleta seletiva como um
hábito saudável e urgente. A população até sabe da importância de reciclar, mas
o costume de separar garrafas, vidro, papel é muito mais discurso do que
prática. Uma pesquisa inédita do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de
Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco, realizada com moradores do
Grande Recife, vai direto ao ponto. Feito no final do ano passado e
recém-concluído, o levantamento não deixa dúvidas: todos são a favor da
reciclagem. Mas poucos, pouquíssimos, contribuem com ela. Os números evidenciam
a contradição do dia a dia. Cerca de 95% dos moradores ouvidos consideram a
coleta seletiva importante. Mas apenas 10% separam diariamente o lixo, condição
fundamental para a reciclagem.
Na tentativa de apontar uma
explicação para um percentual tão baixo de adeptos da coleta seletiva, a
pesquisa questiona, entre os que afirmaram que “nunca”, “raramente” ou “só às
vezes” separam os resíduos, o por quê dessa resistência? A resposta coloca o
dedo na ferida: quase 60% dos entrevistados afirmaram que não fazem a coleta
separada porque a prefeitura, na hora de recolher o material reciclável,
mistura tudo com o lixo comum. É um problema agravado por outro. Se o universo
dos que reciclam é mínimo, a falta de continuidade e exemplo do poder público desestimula,
e até afasta, quem poderia e deveria ser convencido a adotar uma prática mais
sustentável.
O impasse se volta, de novo, para a
foto de Paulinho, o menino de 9 anos, que ganha, quando muito, R$ 5, por dia,
para separar o lixo que o descaso e a omissão jogaram no canal. A pesquisa,
feita em parceria com a Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire), quis saber,
quem, na opinião da população, é o maior responsável pelos problemas gerados
pelo lixo. Pelo menos no discurso, a compreensão é clara: para quase 60% das
pessoas ouvidas, esse é um problema de “todos”.
Nas ruas do Recife, o resultado do
levantamento fica evidente de uma forma inconteste e preocupante. Não importa
qual o pedaço da cidade, se o lado dos ricos ou dos mais pobres, o hábito de jogar
dejetos nas vias públicas é uma prática de todos. Independe do endereço e do
valor do IPTU pago. Improvável imaginar que na Avenida Beira-Rio, no bairro das
Graças, área nobre da capital, existe um lixão a céu aberto. Mas ali, às
margens do Rio Capibaribe e aos pés dos arranha-céus de luxo, cresce
diariamente um depósito alimentado pelos restos de construção de prédios e
casas de moradores da própria região. A reportagem flagrou o momento em que um
dos carroceiros despejava metralha trazida de uma reforma feita por um edifício
a poucas quadras dali. Uma rápida olhada no lixo orgânico depositado no trecho
privilegiado da cidade também é revelador: garrafas de vinho italiano, azeite
extravirgem de qualidade e vinagre balsâmico se misturam a restos de comida que
espalham o mau-cheiro e infestam de insetos o lado rico do rio.
Morador da área, o administrador de
empresas Ivan Rui de Andrade Lima está cansado de ver, de madrugada, caçambas e
caminhonetes despejando os restos de construção na beira do Capibaribe. “É o
lixo da classe média alta. Como se esse não fosse um problema também deles.
Querem se livrar dos entulhos e jogam em qualquer lugar. É revoltante”, diz.
Ele mesmo evitou que os restos de construção da reforma feita no próprio
edifício fossem jogados na beira do rio. “Quando vi que os funcionários da
empresa responsável pelo serviço iam jogar lá, adverti. Esse eu consegui
evitar”, conta. É a mesma falta de consciência que incomoda o vigia Uberlândio
Nascimento, morador de um conjunto popular do bairro da Torre, na Zona Norte da
cidade. Acostumado a ver os vizinhos jogando lixo até pela janela, ele
desabafa: “O problema é que as pessoas reclamam, mas ninguém faz a sua parte. O
bom é jogar a culpa nos outros”. Na calçada do residencial, o cenário traduz a
revolta do vigia: sacos de lixo rasgados e espalhados e um colchão velho
largado na calçada.
ne10.com
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