Da Revista Época
Eliana Zagui é uma mulher forte e de muita personalidade. Deitada numa
cama, sem movimentos do pescoço para baixo, vive quase de forma vegetativa,
respirando com a ajuda de equipamentos, com o orifício aberto no pescoço e a
cânula da traqueostomia, há mais de 36 anos na UTI do Hospital das Clínicas de
São Paulo. Formada em História da Arte, tornou-se pintora, fala inglês e
italiano e no dia 10 de abril, lançou o livro: “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil”. Trechos de “Pulmão de aço”:
![]() |
| imagem: revistaepoca.globo.com |
Adolescência numa UTI
A minha pior fase foi logo depois dos 12 anos. Até então, sonhava com o
dia em que os médicos entrariam esbaforidos, anunciando aos gritos a descoberta
da cura para a paralisia e que, após algum remedinho ou injeção, em poucos dias
estaríamos em pé novamente, correndo de volta para casa. Na adolescência
tivemos a certeza de que isso nunca ocorreria. A cada ano ficava mais claro que
a nossa doença era irreversível. E que, mesmo que tivéssemos alta, não teríamos
para onde ir. Minha vida mudou aos 12 anos, quando menstruei pela primeira vez.
Foi um reboliço. Acho que por mais que todos estivessem cientes de que isso
iria ocorrer, foi um marco tão importante quanto ultrapassar a expectativa
inicial de apenas dez anos de vida. Deixar de ser criança mudou meus
relacionamentos — e também meu jeito de encarar a vida.
Começamos a nos sentir mocinhas, espécie de cúmplices das auxiliares e
enfermeiras em assuntos femininos. Esse foi o lado bom. O ruim foi que
começamos a ter a certeza de que não seríamos crianças para sempre e que,
crescendo, o tratamento recebido das pessoas e do próprio hospital seria outro.
Quando novinhos, despertávamos compaixão imediata. Os que não apresentavam
grande resistência ao nosso estado físico logo ficavam penalizados. Queriam nos
consolar, ninar, dar presentes. Depois de crescidos, desajeitados e cheios de
vontades — e sem perder totalmente alguns traços da infância, até por falta de
contato com o mundo exterior —, a coisa complicou.
Uma vida de partidas – sem poder partir
Comecei a me dar conta de que a solidão e o sentimento de abandono me
incomodavam mais que a própria doença e seus desdobramentos. Passei a me
questionar: por que todo mundo tinha alta e ia embora? E por que a minha
família não vinha me buscar também? Nessas horas, chorava muito. O sentimento
de abandono ficava ainda maior exatamente pela saída dos moradores e visitantes
temporários. Quem trabalhava aqui, amigos dos amigos, pessoas que prestavam
assistência religiosa e outros personagens saíam de nossas vidas da mesma forma
que haviam entrado: de repente. Um por um, quase todos desapareceram, depois de
termos criado algum tipo de laço.


