Escrito Por Karen Fernandes
Karen Fernandes é enfermeira e
especialista em Pedagogia.
“Percebi que todos aqueles que são a favor do aborto já nasceram”,
dizia Ronald Reagan.
Não é possível defender o aborto
como simples questão de escolha sem colocar em xeque as bases da própria
existência da sociedade de direito. É como o macaco que serra o galho em que
está sentado, ou o pedreiro que marreta a laje sob a qual se sustenta.
Só há liberdade de escolha para
quem foi garantido o direito de existir. Quem não tem direito de nascer,
tampouco tem direito de escolher. O grito do aborto como direito da mulher é um
grito louco dos contraditórios: se 50% das pessoas que nascem são mulheres – e
o aborto impede que muitas mulheres venham ao mundo – como o aborto protegerá o
direito a liberdade da mulher que está sendo impedida de viver, de ser dona da
própria existência? É óbvio que o aborto trata apenas do direito do mais velho,
do mais forte, do mais independente sob negação do mais novo, mais fraco e
vulneravelmente dependente. É opressão pura travestida de autonomia. A
liberdade é filha do direito e se desenvolve do respeito ao próximo.
Não se trata de religião,
laicismo, sanitarismo, filosofia; se trata de simples justiça e pacto social.
Você não me mata e me deixa nascer e eu prometo em troca não sangrar quem virá
depois de mim. Todos que nascem, já nascem devedores disso. Quem quer fazer
parte do mundo dos viventes é moralmente obrigado a conservar a vida alheia, e
não deve ser considerado herói por isso: de graça recebeu a existência, de
graça deve garantir a dos demais. Não há sociedade possível sem que todos seus
integrantes – de novos a idosos – tenham o mesmo valor. Os países que permitem
o aborto e possuem taxas de natalidade abaixo da mera reposição, com população
em pleno declínio e insolúveis crises providenciarias bem o sabem.
Ou a liberdade individual se
expande até onde começam os direitos do próximo e para aí, neste a quem
chamamos “tú”, ou caímos na barbárie pura e simples, num caminho quase sem
volta onde os fracos só têm vez quando a sorte resolve ficar do seu lado. Não é
por acaso que todo país que chega na eutanásia dos idosos, inválidos e ditos
“inúteis”, o faz depois de normatizado a arbitrariedade da cultura abortista,
que atrela o direito à vida alheia ao subjetivismo dos mais fortes, saudáveis,
úteis. A vida precisa de mais garantias.
Precisamos abolir essa nova espécie
de escravidão de uma vez por todas: ninguém é propriedade de ninguém para ser
tratado como objeto negociável, ninguém tem o direito de decidir pela vida e
pela morte de quem quer que seja. Dramas não justificam o injustificável.
Aborto é miséria, é injustiça, é opressão, e talvez mais do que tudo, aborto é
desprezo e ingratidão para com toda a comunidade humana. Não precisamos
postular isso.

Um comentário:
maravilhoso texto
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