domingo, 20 de maio de 2012

COM A BOCA, ELA ESCREVEU UMA VIDA – CAPÍTULO 3 (final)

Da Revista Época
imagem: revistaepoca.globo.com

Eliana Zagui é uma mulher forte e de muita personalidade. Deitada numa cama, sem movimentos do pescoço para baixo, vive quase de forma vegetativa, respirando com a ajuda de equipamentos, com o orifício aberto no pescoço e a cânula da traqueostomia, há mais de 36 anos na UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo. Formada em História da Arte, tornou-se pintora, fala inglês e italiano e no dia 10 de abril, lançou o livro: “Pulmão de Aço – uma vida no maior hospital do Brasil”. Trechos de “Pulmão de aço”:


Adolescência numa UTI
A minha pior fase foi logo depois dos 12 anos. Até então, sonhava com o dia em que os médicos entrariam esbaforidos, anunciando aos gritos a descoberta da cura para a paralisia e que, após algum remedinho ou injeção, em poucos dias estaríamos em pé novamente, correndo de volta para casa. Na adolescência tivemos a certeza de que isso nunca ocorreria. A cada ano ficava mais claro que a nossa doença era irreversível. E que, mesmo que tivéssemos alta, não teríamos para onde ir. Minha vida mudou aos 12 anos, quando menstruei pela primeira vez. Foi um reboliço. Acho que por mais que todos estivessem cientes de que isso iria ocorrer, foi um marco tão importante quanto ultrapassar a expectativa inicial de apenas dez anos de vida. Deixar de ser criança mudou meus relacionamentos — e também meu jeito de encarar a vida.


Começamos a nos sentir mocinhas, espécie de cúmplices das auxiliares e enfermeiras em assuntos femininos. Esse foi o lado bom. O ruim foi que começamos a ter a certeza de que não seríamos crianças para sempre e que, crescendo, o tratamento recebido das pessoas e do próprio hospital seria outro. Quando novinhos, despertávamos compaixão imediata. Os que não apresentavam grande resistência ao nosso estado físico logo ficavam penalizados. Queriam nos consolar, ninar, dar presentes. Depois de crescidos, desajeitados e cheios de vontades — e sem perder totalmente alguns traços da infância, até por falta de contato com o mundo exterior —, a coisa complicou.


Uma vida de partidas – sem poder partir
Comecei a me dar conta de que a solidão e o sentimento de abandono me incomodavam mais que a própria doença e seus desdobramentos. Passei a me questionar: por que todo mundo tinha alta e ia embora? E por que a minha família não vinha me buscar também? Nessas horas, chorava muito. O sentimento de abandono ficava ainda maior exatamente pela saída dos moradores e visitantes temporários. Quem trabalhava aqui, amigos dos amigos, pessoas que prestavam assistência religiosa e outros personagens saíam de nossas vidas da mesma forma que haviam entrado: de repente. Um por um, quase todos desapareceram, depois de termos criado algum tipo de laço.


Sei que a rotina de hospital, ainda mais numa UTI, não é das mais agradáveis. Muita gente nem tem estômago para entrar aqui. Perdi a conta de quantas pessoas desmaiaram na minha frente. Eu as entendo. Mas não consigo compreender por que alguns começam a nos visitar com constância, criam expectativas e depois desaparecem. São dezenas de casos assim. Pessoas a quem passamos a considerar nossas mães, pais, tios e irmãos. Claro que o sumiço, pelo menos da maioria, tem um motivo. Mas, quando nos apegamos a alguém, a dor da perda é muito grande.








Tentativas
Algumas vezes pensei em acabar com toda essa dor. Tornei-me obcecada, tinha pensamentos mórbidos. Passei a estudar formas de tirar minha própria vida.  Avaliava as possibilidades: arrancar a cânula da traqueia com a boca, cortar ou furar o pescoço com algum objeto. Já tinha tudo planejado: esperaria um momento de descuido das auxiliares, faria uma prece e me despediria do mundo em silêncio. Quando notassem, seria tarde demais. Meus pais seriam chamados e, desesperados, chorariam – pela perda e pela culpa. Queria muito que eles sentissem minha falta.

Pouco antes dos 13 anos, ganhei um broche de presente, que guardava numa caixa de madeira, junto com outras lembranças. Pedia, todas as tardes, que as auxiliares a deixassem ao meu alcance. Não imaginavam que, mais do que remexer em meus pertences com a espátula, meu maior objetivo era buscar uma maneira eficiente de usar o alfinete do broche para provocar um ferimento mortal em meu pescoço ou pulso.




Eu pegava o broche com a boca e tentava me furar. Pedia que colocassem meu braço perto do rosto. Alegava que era para poder sentir o toque da caixinha, mas queria mesmo era tê-lo ao alcance da boca para poder me ferir. O máximo que consegui foi espetar o braço. Algumas vezes nem saía sangue. Em muitas ocasiões, os profissionais da enfermagem nem percebiam – ou achavam que eu havia me machucado sem querer.


Também já tentei tirar o tubo de oxigênio. Muitos dos meus amigos aproveitavam uma oportunidade qualquer e se jogavam no chão. Sem êxito. Descobrimos que até para morrer antes da hora precisamos da ajuda de alguém. Não posso negar que volta e meia essas ideias ainda me visitam. Mas tento me apegar aos estudos e à pintura sem lutar contra o tempo.









Cláudia e a geografia
Cláudia tinha a mesma idade que eu. Nascemos no mesmo ano. Eu em março, ela em abril. Só que a poliomielite a atingiu mais tardiamente. Fiquei doente antes dos dois anos, mas ela tinha mais de seis quando apresentou os primeiros sintomas. Sentia-se num mundo estranho e, acredito, tinha esperanças de deixar o hospital e retomar o convívio dos pais. Os anos foram passando, e as visitas da família rareando até desaparecer. Depois da fase inicial, por um período de quase duas décadas, sua mãe veio ao HC apenas uma vez. Mesmo assim, Cláudia os amava. Procurava justificar a ausência dos pais com o argumento de que moravam longe. Quando crescemos um pouco, já com dez ou onze anos, começamos a ter aulas. Uma das professoras, Elda de Lucca, nos deu as primeiras lições de geografia. Cláudia aproveitou:


 

— Tia, a casa dos meus pais é no Brasil?

— É sim, Claudinha. Eles são aqui da cidade de Campo Limpo Paulista, próxima a São Paulo. 

— Mas isso é muito longe? – perguntou. 
— Não, Claudinha. É perto.  

— É como a casa da Eliana?  

— Não. Pense assim: para virem para cá, os pais da Eliana demoram cinco horas. Saem de manhã e chegam só após o almoço. Os seus pais, se saíssem no mesmo horário, chegariam aqui em uma hora, antes de vocês tomarem banho. Cláudia chorou durante uma semana.





imagem: revistaepoca.globo.com





Paulo
Criada no hospital, eu o considero um irmão mais velho. A primeira pessoa a quem contei que estava pensando em escrever minhas memórias foi ele. Não só porque é meu melhor amigo. Como únicos remanescentes das vítimas da paralisia, somos colegas de quarto e ficamos juntos 24 horas por dia há mais de 30 anos. Não poderia expor minha vida sem que ele fizesse parte do relato. Ele precisava saber e concordar. Talvez por ter enfrentado momentos delicados desde a infância, de início Paulo não se empolgou muito com a ideia. Demorou a participar deste livro. Tem sido difícil abrir sua caixa de memórias. A dor nos ensina a calar. E Paulo colecionou ao longo desse tempo alguns episódios dolorosos que justificam plenamente seu comportamento arredio. Durante boa parte da infância, fomos mantidos sob rigorosa disciplina.






Paulo conta: Quando eu era garoto, sempre fui chamado à atenção. Brigavam comigo porque eu falava alto. Me mandavam esperar minha vez de falar. Praticamente, fomos educados pelo pessoal da enfermagem. Algumas pessoas foram extremamente sensíveis, doces. Outras, rígidas e frias. Mesmo assim, raramente fomos desrespeitados ou maltratados.

O único episódio mais sério e literalmente traumático ocorreu justamente com Paulo. Na  infância, quando sentado, ele tinha o hábito de balançar as pernas. Sem controle da musculatura dos membros inferiores, usava o pouco movimento restante nas mãos para dar impulso às perninhas finas. Elas ficavam balançando de um lado para o outro, como se fossem pêndulos. Era só uma maneira de se divertir e passar o tempo, mas isso deixava uma das atendentes de enfermagem particularmente irritada.



“Pare de balançar essas pernas, Paulo”. Claro que ele não parava. Um dia, depois de muito brigar e exigir que ele encerrasse a brincadeira, essa moça o viu segurar as pernas e acomodá-las com os pés juntos, em posição de lótus. Parece que isso a irritou ainda mais. Descontrolada, deu-lhe um tapa nos pés. Os ossos fracos, característicos de quem sofre de pólio severa, sofreram fraturas. Paulo passou meses com as duas pernas imobilizadas. A direção do hospital agiu de imediato. Demitiu a atendente por justa causa.









“Éramos sete”
A perda de Pedro foi sentida durante meses. Abateu-se sobre nós um indescritível desânimo. Tínhamos tão poucos à nossa volta e acabávamos de perder um grande e querido amigo. Menos de um ano depois, o luto ainda estava muito presente quando Anderson exalou seu último sopro de vida. A primeira perda abalou nossas convicções. Sabíamos que Pedro tinha saúde frágil, mas isso, afinal, não era exclusividade dele. Para nós, era como se fôssemos sobreviventes, achávamos que, passada a fase crítica na infância, estaríamos a salvo. A morte de Pedro nos mostrou que não era assim.



A de Anderson nos trouxe a confirmação disso. Agora, a questão era saber quem seria o próximo. Assistimos à morte repentina de Anderson. Foi traumático. Estava conosco, tranquilo, quando seus pulmões simplesmente entraram em colapso numa tarde de 1993. Sem conseguir respirar, gritava de desespero. Os médicos tentaram de tudo para salvá-lo. A última imagem que guardo de meu amigo sorridente e sempre disposto a uma brincadeira é dele agarrado ao colarinho do Dr. Takeda pedindo, com o que lhe restava de forças, que o salvasse.



Tânia nos deixaria no ano seguinte. Foi um processo silencioso, precedido de forte depressão. Até hoje acho que ela entregou os pontos. A moça vivaz, extrovertida, cansou de lutar. Simplesmente desistiu de viver. Morreu dormindo em 1994.

A partida de Luciana ocorreu pouco depois, também naquele ano. Estava com a saúde bem comprometida havia meses em virtude de uma séria parada respiratória. Já não nos reconhecia nem expressava reação alguma. Entrou em coma. Em seus últimos dias, só dormia e chorava de modo angustiante. Diziam que não escutava mais. Tenho minhas dúvidas. Certa noite, todos dormiam. De repente, ela começou a chorar muito alto. Acordei e fiquei ouvindo aquele choro aflito. Sem saber o que fazer, criei coragem e disse em voz alta: “Pare de chorar, Lu!”. Ela parou.



Cláudia se foi em 1996. Depois disso, minha vida nunca mais seria a mesma. Restamos Paulo e eu.









Independência
Travei contato com a terapia ocupacional por volta dos oito anos. Mais ou menos quando descobri que era diferente da maioria das outras pessoas, incluindo meus colegas de enfermaria. A paralisia lhes poupara pelo menos parte do movimento das mãos. Eu e Cláudia não recebemos esse benefício. As terapeutas promoviam brincadeiras, mostravam letras e números, nos faziam cantar musiquinhas. Comigo, testaram alternativas para que eu utilizasse a boca para alcançar objetos próximos. Tentaram com um lápis, mas não funcionava muito bem. O lápis é muito liso, roliço, não serve para ‘pescar’ as coisas.



Testaram uma caneta, também sem sucesso. Depois de meses de experiências fracassadas, quase sem querer, os profissionais do hospital notaram que a espátula de examinar garganta seria a melhor opção. Achatada, ela facilita o uso, além de existir em abundância em qualquer hospital. Com o tempo, fui ficando craque na espátula. Aprendi a puxar coisas, cobrir o rosto, empurrar cobertas. Descobri ainda que, fazendo um corte numa das pontas com os dentes, conseguia utilizá-la como uma garra. Passei a encaixar as coisas nessa ranhura e manejá-las. É minha ‘mãozinha’, como diz Paulo.



‘O que ela acha que pode me ensinar?’, Pensei, várias vezes, durante o aprendizado com a pintura, quando as terapeutas usavam as mãos e tentavam me fazer pintar e desenhar com a boca. ‘Ela já fez alguma coisa com a boca?’ Assim como ocorreu quando aprendi a escrever, durante a adaptação ao uso da espátula nas atividades artísticas, tive momentos de revolta. Era duro aceitar que eu nunca usaria as mãos. Nessas horas, jogava tudo no chão ou rasgava o caderno de tanto riscá-lo com força.


A revolta parou quando percebi que não adiantava nada. Teria de me tornar minimamente independente. Precisava fazer um esforço. É bem isso que sou hoje: minimamente independente. Sei escrever, teclar, pintar, atender telefone, virar as páginas de um livro, mas dependo demais dos outros. Além de cuidarem da minha higiene e alimentação, tenho de esperar que coloquem os objetos ao meu alcance. Então, realizar essas tarefas com a boca é o que me ajuda a me sentir viva e me dá um pouco de dignidade. De outro modo, seria um vegetal.





O Mar
Em 1998, Cleide nos convidou para irmos até sua casa em Praia Grande. Ficamos em dúvida se iríamos ou não até o último momento. O tempo não estava ajudando. A previsão indicava tempo bom, mas o céu estava fechado no dia do passeio. Os voluntários resolveram arriscar. Acho que Deus, com pena, decidiu abrir o tempo por alguns minutos para que pudéssemos desfrutar da praia.

Ao abrirem a porta da ambulância, tivemos uma das maiores emoções de nossas vidas. Um deslumbramento. Fazia frio, eu e Paulo continuávamos lá dentro, totalmente enrolados em cobertores. Esticávamos o pescoço para não perder um centímetro da paisagem. Um cenário grandioso, aquele encontro do céu com a água no horizonte. Começamos a tremer como loucos. E nem era de frio. O Dr. Maneta, que acompanhava o passeio, temia alguma complicação de saúde. Ele estava em dúvida se deixaria ou não a gente sair da ambulância.

Ao final, cedeu: “Eles vieram aqui para ver o mar, não é? Então vamos descer. Eles vão ver o mar de perto.”

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