Chico Buarque entrou em campo na
quarta-feira, 11, e conquistou, para o Brasil, a primeira vitória na Copa do
Mundo: bem, pelo menos a primeira na World Cup of Literature (WCL), realizada
pelo Three Percent, um programa da Universidade de Rochester, nos EUA, voltado
à divulgação da literatura estrangeira.
A competição funciona assim: dois
livros - cada um representando um país - são colocados frente a frente, um
“juiz” elabora um jogo (em formato de resenha) e define um placar final e o
vencedor. O sistema é eliminatório e cada país que joga a Copa do Mundo tem um
representante no projeto (veja ao lado alguns dos candidatos).
Na medida em que a competição
avança, mais juízes são envolvidos em um mesmo jogo. O perfil dos “árbitros” é
variado, mas envolve pessoas ligadas ao mercado editorial, aos estudos
acadêmicos, tradutores, livreiros e leitores de maneira geral.
“Por que não usar o maior
espetáculo do futebol para atrair atenção para a literatura internacional?”,
diz o organizador do projeto e diretor da editora da Universidade de Rochester,
Chad W. Post. Ele ainda tentou, na medida do possível, coincidir
características da literatura de cada autor com o estilo da seleção atual de
cada país.
Ele cita The Pale King, de David
Foster Wallace, que “joga” como a seleção americana. “Assim como o USMNT (sigla
pela qual o time americano é conhecido), é algo incompleto”, brinca. “É um
monte de partes tentando formar um conjunto, uma defesa vacilante, e trata do
tédio, que é como muitos norte-americanos veem o futebol.”
“Por outro lado, Javier Marías,
com Seu Rosto Amanhã, dá corpo à seleção espanhola na medida em que sua
literatura tem tantos passes/sentenças ‘de lado’, o jeito que ele controla ‘a
bola’, sua ambição, a construção até o ‘gol’”, continua.
O projeto que Post lidera é
batizado “Three Percent” em uma referência à quantidade de traduções no mercado
editorial americano (3% do total de publicações) - quando o assunto é ficção e
poesia estrangeira, esse número passa a 0,7%. Número estranho ao leitor
acostumado ao mercado brasileiro.
“Para explicar, seria necessário
um livro”, diz Post, autor de The Three Percent Problem, sua própria tentativa.
“Mas em poucas palavras, é uma questão de lucros. É mais barato publicar livros
em inglês, e mais provável que se venda mais unidades, já que os autores estão
disponíveis para turnês, lançamentos, etc.” Com literatura em outras línguas,
as grandes editoras não lucram com direitos autorais.
“Se mais livros traduzidos são
publicados, toda a estrutura de grandes adiantamentos, o volumoso trabalho de
marketing, as vendas de seis dígitos para as editoras estrangeiras, tudo isso
vai por água abaixo.”
No Brasil
A Copa de Literatura Brasileira
já realizou cinco edições desde 2007. Em 2013, o campeão foi Diário da Queda,
de Michel Laub, em uma decisão equilibrada contra O Sonâmbulo Amador, de José
Luiz Passos.
“O objetivo verdadeiro é falar (e
fazer falar) de literatura brasileira - para o bem ou para o mal”, diz Lucas
Murtinho, um dos organizadores. Para 2014 não está prevista uma edição.
Também no ano passado, a
“competição” ganhou destaque quando o autor de um dos livros selecionados -
Paulo Scott, de O Habitante Irreal - não viu a brincadeira com bons olhos e
pediu para o seu livro ser retirado, alegando que não queria um de seus livros
nesse tipo de disputa. O pedido foi negado pela organização.
“Lamento que a Organização do
evento sustente esse equívoco tremendo, lamento profundamente que o sustente de
maneira impositiva, tributária, afrontando os direitos autorais morais de um
escritor”, escreveu Scott em seu Facebook.
Para Murtinho, as críticas sobre
a superficialidade da Copa são válidas até certo ponto. “Para quem acha que
‘literatura é coisa séria’, a Copa pode ser até meio ofensiva. Somos um
torneiozinho online, organizado com pouco tempo. Quem não gosta da ideia pode
ignorá-la com bastante facilidade.”
O Estadão

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