quarta-feira, 20 de julho de 2011

Para relembrar Saramago


 Há pouco mais de um ano, morria o escritor português José Saramago (18/06/2010). Ganhador do Nobel de literatura em 1998, Saramago, além de escritor, era argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta. Sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa. Ateu militante, Saramago envolveu-se em diversas polêmicas por causa de suas declarações, sendo talvez a principal delas a sua saída de Portugal devido às críticas ao seu O evangelho segundo Jesus Cristo. Dentre suas obras, destacamos também os romances Ensaio sobre a lucidez, Todos os nomes, O conto da Ilha Desconhecida e Ensaio sobre a cegueira, sobre o qual gostaria de tratar aqui.


Ensaio sobre a cegueira foi o único livro de Saramago adaptado para o cinema (2008), e teve como diretor o brasileiro Fernando Meirelles. O enredo é o seguinte: em uma cidade qualquer, de um país qualquer, um homem, que estava dirigindo seu carro, fica cego enquanto esperava o semáforo abrir numa movimentada avenida. Ele ainda não sabe, mais é a primeira vítima de uma misteriosa epidemia: a cegueira branca. Isso mesmo, branca. As autoridades de saúde começam a agir. Isolam todos os contaminados na esperança de controlar a epidemia. Devido ao medo da contaminação, os responsáveis por vigiar os cegos recusam-se inclusive a entregar-lhes a comida. Nenhum cuidado adianta. Depois de certo tempo, todos na cidade e no país estão contaminados, todos estão cegos, exceto uma pessoa, uma mulher: a esposa de um médico oftalmologista. É ela, como única pessoa que vê, quem presenciará todos os sinais da barbárie que se instalará em consequência do estado geral de cegueira: mortes, desespero, medo, luta pela sobrevivência, exploração, violência, ao mesmo tempo que tentará atravessar essa mesma barbárie e cuidar do grupo de cegos que se refugiou ao seu redor, entre eles, seu próprio marido.

O romance de Saramago nos leva a nós, seus leitores, a refletir sobre cada cena narrada. É um texto que choca, angustia, sufoca. Como ele mesmo disse: “Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

– Não somos bons - afirma Saramago. E não parece ser difícil aceitar essa sentença quando olhamos em volta com um pouco mais de cuidado. Na trama do romance do escritor português, narra-se uma estória num contexto fantástico, extremo, impensável fora da fantasia literária. Mas é justamente esse ensaio de uma possibilidade extrema que nos permite avaliar o quão distante ou próximos estamos do absurdo. Saramago quer desnudar o ser humano colocando-o diante de situações extremas para fazer cair a máscara da civilidade, máscara essa feita muitas vezes de hipocrisia, que pretende mostrar o homem moderno, cosmopolita, dotado de uma cultura humanista (lembremos que Saramago escreve a partir de uma realidade europeia), como um ser essencialmente bom. Em alguns trechos da obra, as personagens agem como animais, como seres primitivos, que buscam simplesmente a satisfação de seus instintos mais básicos, mais urgentes: comida, sexo, alívio fisiológico.

Mas ao mesmo tempo o Ensaio sobre a cegueira também fala de compaixão, de solidariedade, de amor, de perdão, o que mostra que Saramago não é tão pessimista assim com relação ao ser humano. Mas é preciso encarar de frente a própria condição humana para não cair na barbárie. –“ Não somos bons”, nos lembra Saramago. Mas também não somos totalmente maus. Em um livro intitulado O mal: como explicá-lo?, seus autores o concluem com a seguinte previsão: “O homem que pratica o mal é o mesmo homem capaz de praticar o Bem. Eis a razão de nossa esperança”. E a de todos nós.








Por: Anderson Francisco

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