quinta-feira, 12 de julho de 2012

“QUEIMEI O PERU”


Da revistaepoca.globo.com

imagem:  revistaepoca.globo.com


WASHINGTON OLIVETTO - Publicitário. Chefe criativo do grupo McCann. Ganhou mais de 50 Leões de Ouro, Prata e Bronze em Cannes por seus filmes publicitários.

"Nos anos 1970, trabalhava na DPZ como diretor de criação. Era muito jovem, 20 e poucos anos. Mas já tinha ganhado os dois primeiros Leões de Ouro da propaganda da TV brasileira em Cannes. Um dos clientes da DPZ era a Sadia. Quem dirigia o marketing da empresa, Ottoni Fontana, tinha fama de ser muito bravo. O pessoal morria de medo dele na Sadia, mas era uma pessoa maravilhosa. E gostava muito de mim. Antes de executarmos qualquer trabalho, montávamos uma prévia com ele. Dizia: ‘Meu querido Washington, você acha que isso vai vender?’. Eu dizia: ‘Olha, seu Ottoni, acho que sim, mas não posso garantir’. ‘Então, vamos fazer’, afirmava ele.

Quando o trabalho ficava pronto, eu e o Francesc Petit, sócio da DPZ, íamos lá apresentá-lo para o senhor Ottoni e sua equipe. Quando a apresentação acabava, todo mundo ficava em silêncio, olhando a reação dele. Ele perguntava: ‘Vocês gostaram?’. Ninguém dizia nada. Ele completava: ‘Porque eu gostei muito’. Daí, todo mundo concordava.

Um dia, a Sadia criou um produto inovador: o peru temperado com termômetro automático, que saltava quando o assado estava pronto. Era uma grande novidade. Como era um novo conceito, o filme tinha de ser bastante didático. Ele avisava que o peru já vinha temperado e trazia um termômetro que saltava quando estivesse pronto. Todas essas informações estavam na embalagem. Mas era função do comercial explicar tudo direitinho.

Escrevi o roteiro. O senhor Ottoni aprovou, e saímos para filmar. Quando vi o comercial na tela da produtora – a gente chamava isso de copião –, percebi que, apesar de o peru estar em close na hora em que ficava pronto, o termômetro era pequeno e poderia passar despercebido por pessoas mais distraídas. Pedi para o diretor do filme colocar uma setinha vermelha e um bipe para chamar a atenção para aquela cena. Então, quando o termômetro saltava, aparecia a setinha e fazia bipe-bipe. Ficou pronto o comercial, levei-o ao senhor Ottoni. Ele gostou muito. O filme foi para o ar.




O brasileiro tem uma característica: não gosta de ler manuais ou rótulos de embalagem. As donas de casa viram o comercial e ficaram encantadas com a ideia de um peru que já vinha com o tempero pronto e tinha um termômetro que saltava e... apitava. Muitas ficaram esperando o termômetro apitar até o peru queimar. A Sadia recebeu um monte de reclamações. Foram mais de 1.000 perus queimados.

Seu Ottoni chamou a gente. Ele não estava bravo, mas queria saber o que poderíamos fazer com essa história do apito. Daí, a gente tirou o apito, botou uma locução dizendo que não apitava, só saltava.

O produto foi um enorme sucesso. Até hoje é. Apesar da correção que fizemos, daquele Natal em diante as pessoas passaram a procurar pelo peru da Sadia que apita. Até hoje ele é chamado assim por muita gente. Mas ele não apita."


MORAL DA HISTÓRIA: O mal hábito que temos em não ler e a falta de comunicação pode trazer sérios e irreversíveis problemas.

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