segunda-feira, 9 de junho de 2014

A poucos dias do Mundial, alguns brasileiros ainda questionam realização da Copa

Cada dia que passa aumenta a ansiedade do torcedor na contagem regressiva para o Mundial. Daqui a três dias, a maioria dos brasileiros não pensará em outra coisa a não ser no jogo de abertura da Copa, às 17h, na próxima quinta-feira (12), entre o Brasil e a Croácia. O sentimento, entretanto, não é compartilhado por todos.

A estudante Thalita Pedon, 22 anos, não gosta de futebol: "Eu não sei o nome dos jogadores, não sei nada sobre os campeonatos. Eu realmente não entendo. Até meus amigos brincam comigo, porque quando eu pergunto alguma coisa é sempre uma besteira", diz. Ela afirma que não coloca a Copa como prioridade, tanto que nem sabia os dias dos jogos: "Só me preocupei com isso porque lembrei que os expedientes vão ser modificados". A estudante conta, inclusive, que não concorda com o fechamento de locais como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - onde ela faz mestrado - nos dias de jogos na Arena Pernambuco e jogos da Seleção Brasileira: "Fico sem poder entrar nos laboratórios, acho isso errado."

Thalita contou que sua família gosta de acompanhar o evento, e que se juntará a eles caso marquem algo. "Se me convidarem eu vou mais pela companhia, porque sempre tem aquele clima de Copa. Mas não penso em comprar enfeites, nem pintar as unhas de verde e amarelo, como as pessoas fazem", conta.

Aliciana Barros, 44, é diretora de uma escola técnica e disse que teve dificuldades na adaptação do calendário para a rotina do Mundial. "Vai atrapalhar, ficamos com o semestre defasado. É complicado planejar a reposição", reclama. Ela acha que o Brasil não estava preparado para sediar um evento com as proporções da Copa do Mundo: "Existem milhares de prioridades. É aquela velha história do Pão e Circo."

A diretora acha que o evento será uma bagunça, já que muitas obras não ficaram prontas. "Não estou com a menor empolgação. Nunca despertei interesse por futebol e, com o evento mais próximo, vai juntando o sentimento de revolta", disse. Aliciana afirmou que não pretende assistir à nenhum jogo e pensa em fazer uma programação diferente com a família. "Se minhas filhas não fossem pequenas, eu viajaria. Vou aproveitar para curtir o tempo com elas", disse.

O professor da rede municipal de ensino e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Francisco Alexandrino, 33, não concorda de forma alguma com a execução do evento: "Eu não tenho nenhuma empolgação, não tenho ânimo. Eu abomino a Copa do Mundo, ela é deplorável", destacou. Para ele, o Mundial é uma forma que a ordem econômica vigente encontrou de alienar a população. "Acho o futebol um esporte interessantíssimo, pois envolve o trabalho em equipe e a estratégia, mas a forma como ele foi construído pelo capitalismo deformou o jogo", opina.

Alexandrino conta que, sempre que tem a oportunidade, discute o assunto com seus alunos em sala de aula. Ele acredita, assim como Aliciana, que existem inúmeras prioridades para o País. "Enquanto o mundo está se acabando as pessoas estão se pintando de verde e amarelo. O Brasil pode ganhar a Copa mas perder em emprego, educação, saúde."
Ele também não gosta da forma com a que o futebol é posto no âmbito local. Recife é conhecida como palco de violência em dias de jogos. Para explicar, ele compara as torcidas organizadas aos hooligans, organizadas inglesas conhecidas mundialmente pelo fanatismo e violência.

O professor também discorda da "intromissão" da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) no funcionamento das cidades-sede no período. "É como um processo de colonização. A partir do momento em que eu tiro a autonomia governamental de um local, eu estou dizendo que ele é formado por incompetentes", opina.

Apesar disso, não descarta a possibilidade de acompanhar algum jogo. "Se minha família estiver assistindo, não vou deixar de estar com eles. Vejo como uma forma de confraternização, assim como veria uma peça de teatro ou um filme no cinema, mas não tenho aquela sede que o Brasil ganhe. Queria que o País ganhasse nos aspectos que vai fazer dele evoluído, com educação e saúde de qualidade", conclui.

O policial rodoviário federal Éder Rommel, 46, não gosta de futebol, mas precisará saber a rotina da Copa por causa do trabalho. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) fará parte do esquema de segurança nos dias de jogos na Arena Pernambuco e do Brasil. "Trato com profissionalismo, tenho que ficar ligado. Não me dá prazer ter que saber disso", afirma. Ele conta que, quando não estiver trabalhando, provavelmente vai descansar ou assistir a um filme, mas não pretende assistir as partidas: "Minha família nunca se juntou para ver, nunca torcemos para time nenhum."

Do NE10

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