Cada dia que passa aumenta a
ansiedade do torcedor na contagem regressiva para o Mundial. Daqui a três dias,
a maioria dos brasileiros não pensará em outra coisa a não ser no jogo de
abertura da Copa, às 17h, na próxima quinta-feira (12), entre o Brasil e a
Croácia. O sentimento, entretanto, não é compartilhado por todos.
A estudante Thalita Pedon, 22
anos, não gosta de futebol: "Eu não sei o nome dos jogadores, não sei nada
sobre os campeonatos. Eu realmente não entendo. Até meus amigos brincam comigo,
porque quando eu pergunto alguma coisa é sempre uma besteira", diz. Ela
afirma que não coloca a Copa como prioridade, tanto que nem sabia os dias dos
jogos: "Só me preocupei com isso porque lembrei que os expedientes vão ser
modificados". A estudante conta, inclusive, que não concorda com o
fechamento de locais como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) - onde
ela faz mestrado - nos dias de jogos na Arena Pernambuco e jogos da Seleção
Brasileira: "Fico sem poder entrar nos laboratórios, acho isso errado."
Thalita contou que sua família
gosta de acompanhar o evento, e que se juntará a eles caso marquem algo.
"Se me convidarem eu vou mais pela companhia, porque sempre tem aquele
clima de Copa. Mas não penso em comprar enfeites, nem pintar as unhas de verde
e amarelo, como as pessoas fazem", conta.
Aliciana Barros, 44, é diretora
de uma escola técnica e disse que teve dificuldades na adaptação do calendário
para a rotina do Mundial. "Vai atrapalhar, ficamos com o semestre
defasado. É complicado planejar a reposição", reclama. Ela acha que o
Brasil não estava preparado para sediar um evento com as proporções da Copa do
Mundo: "Existem milhares de prioridades. É aquela velha história do Pão e
Circo."
A diretora acha que o evento será
uma bagunça, já que muitas obras não ficaram prontas. "Não estou com a
menor empolgação. Nunca despertei interesse por futebol e, com o evento mais
próximo, vai juntando o sentimento de revolta", disse. Aliciana afirmou
que não pretende assistir à nenhum jogo e pensa em fazer uma programação
diferente com a família. "Se minhas filhas não fossem pequenas, eu
viajaria. Vou aproveitar para curtir o tempo com elas", disse.
O professor da rede municipal de
ensino e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Francisco Alexandrino,
33, não concorda de forma alguma com a execução do evento: "Eu não tenho
nenhuma empolgação, não tenho ânimo. Eu abomino a Copa do Mundo, ela é
deplorável", destacou. Para ele, o Mundial é uma forma que a ordem
econômica vigente encontrou de alienar a população. "Acho o futebol um
esporte interessantíssimo, pois envolve o trabalho em equipe e a estratégia,
mas a forma como ele foi construído pelo capitalismo deformou o jogo",
opina.
Alexandrino conta que, sempre que
tem a oportunidade, discute o assunto com seus alunos em sala de aula. Ele
acredita, assim como Aliciana, que existem inúmeras prioridades para o País.
"Enquanto o mundo está se acabando as pessoas estão se pintando de verde e
amarelo. O Brasil pode ganhar a Copa mas perder em emprego, educação,
saúde."
Ele também não gosta da forma com
a que o futebol é posto no âmbito local. Recife é conhecida como palco de
violência em dias de jogos. Para explicar, ele compara as torcidas organizadas
aos hooligans, organizadas inglesas conhecidas mundialmente pelo fanatismo e
violência.
O professor também discorda da
"intromissão" da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa)
no funcionamento das cidades-sede no período. "É como um processo de
colonização. A partir do momento em que eu tiro a autonomia governamental de um
local, eu estou dizendo que ele é formado por incompetentes", opina.
Apesar disso, não descarta a
possibilidade de acompanhar algum jogo. "Se minha família estiver
assistindo, não vou deixar de estar com eles. Vejo como uma forma de
confraternização, assim como veria uma peça de teatro ou um filme no cinema,
mas não tenho aquela sede que o Brasil ganhe. Queria que o País ganhasse nos
aspectos que vai fazer dele evoluído, com educação e saúde de qualidade",
conclui.
O policial rodoviário federal
Éder Rommel, 46, não gosta de futebol, mas precisará saber a rotina da Copa por
causa do trabalho. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) fará parte do esquema de
segurança nos dias de jogos na Arena Pernambuco e do Brasil. "Trato com
profissionalismo, tenho que ficar ligado. Não me dá prazer ter que saber
disso", afirma. Ele conta que, quando não estiver trabalhando,
provavelmente vai descansar ou assistir a um filme, mas não pretende assistir
as partidas: "Minha família nunca se juntou para ver, nunca torcemos para
time nenhum."
Do NE10

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